"Diagnóstico ou rótulo de internet? A neuropsicóloga Flávia Picoli explica o que é neurodivergência de verdade, quais sinais realmente merecem atenção e por que o autodiagnóstico virou um problema."
O diagnóstico melhorou, não foi a condição que apareceu do nada. É o ponto de partida que a neuropsicóloga Flávia Picoli traz para o quarto episódio do IDHAN Sala 01 Podcast, gravado ao vivo no Espaço Cultural e Restaurante Casa de Sinhá, em Santa Rita do Sapucaí (MG). Na conversa com Angélica Nascimento, o tema é neurodivergência: o risco do autodiagnóstico feito com IA e vídeos de internet, e o papel de família, escola e ambiente de trabalho diante de um funcionamento cerebral diferente. A conversa nasce de um incômodo real — a palavra “neurodivergência” se popularizou antes de ser explicada, e hoje basta um vídeo de trinta segundos ou uma pergunta a uma inteligência artificial para alguém sair de lá com um diagnóstico na mão, seu ou de um filho.
O que cabe dentro do guarda-chuva da neurodivergência
Flávia explica que neurodivergência é um termo guarda-chuva: reúne desde altas habilidades e superdotação — que hoje vão além do QI elevado e envolvem também criatividade e enfrentamento de tarefas — até os transtornos do neurodesenvolvimento, condições crônicas de etiologia complexa que afetam o funcionamento cognitivo e intelectual, para melhor ou para pior. Nessa categoria entram o Transtorno do Espectro Autista (TEA), o TDAH e os transtornos específicos da aprendizagem, como dislexia, discalculia e transtorno da comunicação.
Segundo um estudo do CDC dos Estados Unidos citado por ela, de 2023, o TEA afeta hoje uma em cada 36 pessoas — um número que impressiona, mas que, para Flávia, reflete sobretudo o avanço do diagnóstico, e não o surgimento repentino da condição. Antes, pessoas com esse funcionamento simplesmente ficavam excluídas, muitas vezes institucionalizadas, sem nunca serem identificadas ou tratadas.
A família é quem primeiro observa — e o ambiente intrauterino também importa
Para Flávia, a família costuma ser a primeira a notar um comportamento fora do padrão, porque é quem convive diariamente com a criança desde o nascimento. Ela chama atenção para um ponto pouco falado: além do fator genético, o ambiente intrauterino também influencia — o que reforça a importância dos cuidados durante a gravidez, ainda que uma predisposição genética precise existir para que o ambiente tenha esse efeito.
Os sinais de alerta, segundo ela, aparecem como padrões, não como sintomas isolados: choro excessivo, irritabilidade, dificuldade de autorregulação emocional, sensibilidade sensorial, dificuldade de interação social e comportamentos restritos e repetitivos. É a combinação desses elementos — e não um traço isolado — que deve acender o alerta.
O perigo do autodiagnóstico feito com IA e internet
Um dos pontos mais diretos da conversa é o alerta contra o autodiagnóstico. Flávia descreve um padrão que vê com frequência: pais e adultos recorrem a uma inteligência artificial ou a um vídeo de internet, encontram um sintoma isolado que “bate” e concluem um diagnóstico sozinhos. O resultado, segundo ela, pode ser pior do que não fazer nada: decisões equivocadas que, em vez de ajudar, pioram um quadro que muitas vezes nem existe — e rotulam uma criança ou um adulto de forma equivocada.
Ela também rebate o clichê “tudo tem seu tempo”, usado para adiar uma avaliação. Para Flávia, existe sim uma janela esperada de desenvolvimento — quando a fala ou a marcha devem aparecer, por exemplo —, e ignorá-la por comodismo pode atrasar uma intervenção que faz diferença real. Ao mesmo tempo, ela pondera que nem todo atraso fecha um diagnóstico: às vezes a criança só precisa de estímulo e acompanhamento para alcançar o esperado, sem que isso vire um rótulo permanente.
O caminho profissional: pediatra, escola e avaliação neuropsicológica
Diante de um sinal de alerta, o primeiro passo indicado por Flávia é o pediatra — profissional que acompanha a criança desde sempre e constrói, com a família, um raciocínio clínico sobre o histórico de gestação, desenvolvimento e comportamento. Se a dúvida persistir, o passo seguinte é uma avaliação neuropsicológica especializada.
Ela descreve essa avaliação como um processo completo, que vai muito além de fechar ou não um diagnóstico: envolve atenção, memória, velocidade de processamento, eficiência intelectual, função executiva (planejamento, organização, controle inibitório), personalidade e humor — olhando tanto para o prejuízo quanto para o que está preservado. A partir daí, sua equipe no Espaço Integrado direciona orientações específicas para pais, escola e os profissionais que vão acompanhar o caso, como neuropediatras, neurologistas e psicopedagogos.
A escola entra nesse processo como um observador central — o professor, lembra Flávia, passa horas por dia com a criança —, mas nem sempre está preparado para lidar com o que observa. Ela relata casos em que professores alertam a família repetidas vezes e os pais negam o comportamento, por medo do diferente ou por não reconhecerem em casa o que a escola vê na convivência com outras crianças.
Adultos também estão sendo diagnosticados — e nem tudo é TEA ou TDAH
Flávia observa um crescimento expressivo de avaliações em adultos, muitos dos quais cresceram sem nunca terem sido diagnosticados e hoje buscam entender comportamentos que carregam desde a infância. Ela faz, porém, uma ressalva importante: nem todo sintoma em adulto é autismo ou TDAH — às vezes é depressão ou outra questão de saúde mental, e distinguir isso exige investigar a história de infância da pessoa, não apenas o quadro atual. Por isso ela não fecha uma avaliação de adulto sem ouvir alguém que conviveu com ele quando criança.
Ela também faz questão de não romantizar o momento do diagnóstico. Ao contrário do discurso de internet que trata a descoberta como um alívio instantâneo, Flávia descreve um processo que passa por um verdadeiro luto — a pessoa precisa se reorganizar internamente para entender, à luz do diagnóstico, comportamentos e dificuldades que carregou desde a infância e a adolescência sem explicação.
Neurodivergência no ambiente de trabalho
A conversa termina no ambiente corporativo, tema que conecta diretamente com a atuação do IDHAN. Flávia relata terem passado por sua trajetória profissionais rotulados como “difíceis” ou “chatos” simplesmente por terem uma forma diferente de processar estímulos — som, iluminação, ritmo de interação social —, quando na verdade tinham potencial elevado a ser destravado com pequenos ajustes práticos, como um simples abafador de ruído.
Sua mensagem para líderes é direta: não é preciso saber o diagnóstico de ninguém para agir com empatia — a pessoa tem o direito de não revelar o que tem, e isso não deveria ser condição para receber um ajuste razoável. Basta reconhecer que pessoas neurodivergentes e neurotípicas têm sistemas que funcionam de forma diferente — tentar “rodar o sistema de uma na outra” simplesmente não funciona — e que pequenas adaptações de ambiente costumam liberar um potencial que, sem elas, fica perdido em conflitos evitáveis.
Na fala da convidada
Trechos do episódio
"Existe uma necessidade de cautela, uma pesquisa aprofundada, porque são assuntos que merecem de verdade uma atenção — tem a ver com o bem-estar do ser humano."
Angélica Nascimento
"As pessoas às vezes começam a confundir isso. Precisamos sempre ter um olhar do que realmente está diferente, e não achar normal, nem rotular de imediato."
Flávia Picoli, neuropsicóloga
"Vou aqui na IA, vou ver um vídeo de internet, pronto, tá dizendo aqui. Aí os pais acabam tomando decisões totalmente equivocadas, que em vez de ajudar a criança, vão piorar um quadro que às vezes nem existe — e ainda rotular essa criança."
Flávia Picoli, neuropsicóloga
"A avaliação neuropsicológica é uma avaliação completa: eu olho atenção, memória, velocidade de processamento, função executiva, personalidade, humor — e também o que está preservado, não só o prejuízo."
Flávia Picoli, neuropsicóloga
"Neurodivergentes e neurotípicos têm sistemas que funcionam de forma diferente. Muitas vezes a gente quer rodar o sistema de um no outro, e não vai funcionar. Cada um é único."
Flávia Picoli, neuropsicóloga
Perguntas frequentes
Sobre este episódio
- O que é neurodivergência, segundo a neuropsicóloga Flávia Picoli?
- É um termo guarda-chuva para um funcionamento cerebral diferente do esperado pela maioria da população. Reúne desde altas habilidades e superdotação até os transtornos do neurodesenvolvimento, como TEA, TDAH e transtornos específicos da aprendizagem (dislexia, discalculia, transtorno da comunicação).
- Por que o número de diagnósticos de neurodivergência está crescendo?
- Principalmente porque o diagnóstico melhorou, não porque a condição passou a existir agora. Antes, quem tinha um funcionamento diferente ficava excluído ou institucionalizado sem nunca ser identificado. Hoje família, escola e profissionais de saúde reconhecem sinais mais cedo — inclusive em adultos que nunca haviam sido avaliados.
- Por que o autodiagnóstico com IA e vídeos de internet é um problema?
- Porque olha sintomas isolados fora de contexto, sem o raciocínio clínico que observa o conjunto de comportamentos, a história de desenvolvimento e o prejuízo real que eles causam. Isso pode levar a decisões equivocadas dos pais e a rotular uma criança com uma condição que ela não tem.
- Quais sinais em uma criança pequena merecem atenção, segundo a especialista?
- Padrões — não sintomas isolados — como choro excessivo, irritabilidade, dificuldade de autorregulação emocional, sensibilidade sensorial aumentada, dificuldade de interação social e comportamentos restritos e repetitivos.
- Qual deve ser o primeiro passo de um pai ou mãe que percebe algo diferente no filho?
- Observar se o padrão se confirma e buscar o pediatra, que acompanha a criança desde sempre. Se a família permanecer insatisfeita ou achar necessário aprofundar, o passo seguinte é uma avaliação neuropsicológica com um profissional especializado.
- Como o ambiente de trabalho deveria lidar com colaboradores neurodivergentes?
- Com empatia e pequenos ajustes práticos — como reduzir ruído ou reorganizar o espaço — em vez de rotular a pessoa como difícil. Segundo Flávia Picoli, gestores não precisam saber o diagnóstico; a pessoa tem o direito de não revelá-lo. Basta estar disposto a adaptar o ambiente e reconhecer o potencial de quem funciona de forma diferente.
- Receber um diagnóstico de neurodivergência é sempre um alívio imediato?
- Não. Flávia Picoli alerta contra a romantização do diagnóstico feita nas redes sociais. Para ela, existe um processo real de luto: a pessoa precisa se reorganizar internamente para entender, à luz do diagnóstico, comportamentos e dificuldades que carregou desde a infância sem explicação.

Flávia Picoli
Psicóloga e neuropsicóloga, à frente do Espaço Integrado
Flávia Picoli é psicóloga e neuropsicóloga à frente do Espaço Integrado, em Santa Rita do Sapucaí (MG), clínica multiprofissional de Psicologia, Neuropsicologia, Fonoaudiologia e Psicopedagogia. Atua com avaliação neuropsicológica, supervisão de casos e encaminhamento para escola, família e demais profissionais.