IDHAN
IDHAN Sala 01 PodcastEpisódio42 min
saúde mentalneurodivergêncialiderançafamília

Flávia Picoli: neurodivergência não é rótulo de internet, é avaliação clínica

Diagnóstico ou rótulo de internet? A neuropsicóloga Flávia Picoli explica o que é neurodivergência de verdade, quais sinais realmente merecem atenção e por que o autodiagnóstico virou um problema.

Anfitriã: Angélica NascimentoConvidada: Flávia Picoli

Assista também no canal do IDHAN Sala 01 Podcast no YouTube ↗

"Diagnóstico ou rótulo de internet? A neuropsicóloga Flávia Picoli explica o que é neurodivergência de verdade, quais sinais realmente merecem atenção e por que o autodiagnóstico virou um problema."

O diagnóstico melhorou, não foi a condição que apareceu do nada. É o ponto de partida que a neuropsicóloga Flávia Picoli traz para o quarto episódio do IDHAN Sala 01 Podcast, gravado ao vivo no Espaço Cultural e Restaurante Casa de Sinhá, em Santa Rita do Sapucaí (MG). Na conversa com Angélica Nascimento, o tema é neurodivergência: o risco do autodiagnóstico feito com IA e vídeos de internet, e o papel de família, escola e ambiente de trabalho diante de um funcionamento cerebral diferente. A conversa nasce de um incômodo real — a palavra “neurodivergência” se popularizou antes de ser explicada, e hoje basta um vídeo de trinta segundos ou uma pergunta a uma inteligência artificial para alguém sair de lá com um diagnóstico na mão, seu ou de um filho.

O que cabe dentro do guarda-chuva da neurodivergência

Flávia explica que neurodivergência é um termo guarda-chuva: reúne desde altas habilidades e superdotação — que hoje vão além do QI elevado e envolvem também criatividade e enfrentamento de tarefas — até os transtornos do neurodesenvolvimento, condições crônicas de etiologia complexa que afetam o funcionamento cognitivo e intelectual, para melhor ou para pior. Nessa categoria entram o Transtorno do Espectro Autista (TEA), o TDAH e os transtornos específicos da aprendizagem, como dislexia, discalculia e transtorno da comunicação.

Segundo um estudo do CDC dos Estados Unidos citado por ela, de 2023, o TEA afeta hoje uma em cada 36 pessoas — um número que impressiona, mas que, para Flávia, reflete sobretudo o avanço do diagnóstico, e não o surgimento repentino da condição. Antes, pessoas com esse funcionamento simplesmente ficavam excluídas, muitas vezes institucionalizadas, sem nunca serem identificadas ou tratadas.

A família é quem primeiro observa — e o ambiente intrauterino também importa

Para Flávia, a família costuma ser a primeira a notar um comportamento fora do padrão, porque é quem convive diariamente com a criança desde o nascimento. Ela chama atenção para um ponto pouco falado: além do fator genético, o ambiente intrauterino também influencia — o que reforça a importância dos cuidados durante a gravidez, ainda que uma predisposição genética precise existir para que o ambiente tenha esse efeito.

Os sinais de alerta, segundo ela, aparecem como padrões, não como sintomas isolados: choro excessivo, irritabilidade, dificuldade de autorregulação emocional, sensibilidade sensorial, dificuldade de interação social e comportamentos restritos e repetitivos. É a combinação desses elementos — e não um traço isolado — que deve acender o alerta.

O perigo do autodiagnóstico feito com IA e internet

Um dos pontos mais diretos da conversa é o alerta contra o autodiagnóstico. Flávia descreve um padrão que vê com frequência: pais e adultos recorrem a uma inteligência artificial ou a um vídeo de internet, encontram um sintoma isolado que “bate” e concluem um diagnóstico sozinhos. O resultado, segundo ela, pode ser pior do que não fazer nada: decisões equivocadas que, em vez de ajudar, pioram um quadro que muitas vezes nem existe — e rotulam uma criança ou um adulto de forma equivocada.

Ela também rebate o clichê “tudo tem seu tempo”, usado para adiar uma avaliação. Para Flávia, existe sim uma janela esperada de desenvolvimento — quando a fala ou a marcha devem aparecer, por exemplo —, e ignorá-la por comodismo pode atrasar uma intervenção que faz diferença real. Ao mesmo tempo, ela pondera que nem todo atraso fecha um diagnóstico: às vezes a criança só precisa de estímulo e acompanhamento para alcançar o esperado, sem que isso vire um rótulo permanente.

O caminho profissional: pediatra, escola e avaliação neuropsicológica

Diante de um sinal de alerta, o primeiro passo indicado por Flávia é o pediatra — profissional que acompanha a criança desde sempre e constrói, com a família, um raciocínio clínico sobre o histórico de gestação, desenvolvimento e comportamento. Se a dúvida persistir, o passo seguinte é uma avaliação neuropsicológica especializada.

Ela descreve essa avaliação como um processo completo, que vai muito além de fechar ou não um diagnóstico: envolve atenção, memória, velocidade de processamento, eficiência intelectual, função executiva (planejamento, organização, controle inibitório), personalidade e humor — olhando tanto para o prejuízo quanto para o que está preservado. A partir daí, sua equipe no Espaço Integrado direciona orientações específicas para pais, escola e os profissionais que vão acompanhar o caso, como neuropediatras, neurologistas e psicopedagogos.

A escola entra nesse processo como um observador central — o professor, lembra Flávia, passa horas por dia com a criança —, mas nem sempre está preparado para lidar com o que observa. Ela relata casos em que professores alertam a família repetidas vezes e os pais negam o comportamento, por medo do diferente ou por não reconhecerem em casa o que a escola vê na convivência com outras crianças.

Adultos também estão sendo diagnosticados — e nem tudo é TEA ou TDAH

Flávia observa um crescimento expressivo de avaliações em adultos, muitos dos quais cresceram sem nunca terem sido diagnosticados e hoje buscam entender comportamentos que carregam desde a infância. Ela faz, porém, uma ressalva importante: nem todo sintoma em adulto é autismo ou TDAH — às vezes é depressão ou outra questão de saúde mental, e distinguir isso exige investigar a história de infância da pessoa, não apenas o quadro atual. Por isso ela não fecha uma avaliação de adulto sem ouvir alguém que conviveu com ele quando criança.

Ela também faz questão de não romantizar o momento do diagnóstico. Ao contrário do discurso de internet que trata a descoberta como um alívio instantâneo, Flávia descreve um processo que passa por um verdadeiro luto — a pessoa precisa se reorganizar internamente para entender, à luz do diagnóstico, comportamentos e dificuldades que carregou desde a infância e a adolescência sem explicação.

Neurodivergência no ambiente de trabalho

A conversa termina no ambiente corporativo, tema que conecta diretamente com a atuação do IDHAN. Flávia relata terem passado por sua trajetória profissionais rotulados como “difíceis” ou “chatos” simplesmente por terem uma forma diferente de processar estímulos — som, iluminação, ritmo de interação social —, quando na verdade tinham potencial elevado a ser destravado com pequenos ajustes práticos, como um simples abafador de ruído.

Sua mensagem para líderes é direta: não é preciso saber o diagnóstico de ninguém para agir com empatia — a pessoa tem o direito de não revelar o que tem, e isso não deveria ser condição para receber um ajuste razoável. Basta reconhecer que pessoas neurodivergentes e neurotípicas têm sistemas que funcionam de forma diferente — tentar “rodar o sistema de uma na outra” simplesmente não funciona — e que pequenas adaptações de ambiente costumam liberar um potencial que, sem elas, fica perdido em conflitos evitáveis.

Na fala da convidada

Trechos do episódio

  • "Existe uma necessidade de cautela, uma pesquisa aprofundada, porque são assuntos que merecem de verdade uma atenção — tem a ver com o bem-estar do ser humano."

    Angélica Nascimento

  • "As pessoas às vezes começam a confundir isso. Precisamos sempre ter um olhar do que realmente está diferente, e não achar normal, nem rotular de imediato."

    Flávia Picoli, neuropsicóloga

  • "Vou aqui na IA, vou ver um vídeo de internet, pronto, tá dizendo aqui. Aí os pais acabam tomando decisões totalmente equivocadas, que em vez de ajudar a criança, vão piorar um quadro que às vezes nem existe — e ainda rotular essa criança."

    Flávia Picoli, neuropsicóloga

  • "A avaliação neuropsicológica é uma avaliação completa: eu olho atenção, memória, velocidade de processamento, função executiva, personalidade, humor — e também o que está preservado, não só o prejuízo."

    Flávia Picoli, neuropsicóloga

  • "Neurodivergentes e neurotípicos têm sistemas que funcionam de forma diferente. Muitas vezes a gente quer rodar o sistema de um no outro, e não vai funcionar. Cada um é único."

    Flávia Picoli, neuropsicóloga

Perguntas frequentes

Sobre este episódio

O que é neurodivergência, segundo a neuropsicóloga Flávia Picoli?
É um termo guarda-chuva para um funcionamento cerebral diferente do esperado pela maioria da população. Reúne desde altas habilidades e superdotação até os transtornos do neurodesenvolvimento, como TEA, TDAH e transtornos específicos da aprendizagem (dislexia, discalculia, transtorno da comunicação).
Por que o número de diagnósticos de neurodivergência está crescendo?
Principalmente porque o diagnóstico melhorou, não porque a condição passou a existir agora. Antes, quem tinha um funcionamento diferente ficava excluído ou institucionalizado sem nunca ser identificado. Hoje família, escola e profissionais de saúde reconhecem sinais mais cedo — inclusive em adultos que nunca haviam sido avaliados.
Por que o autodiagnóstico com IA e vídeos de internet é um problema?
Porque olha sintomas isolados fora de contexto, sem o raciocínio clínico que observa o conjunto de comportamentos, a história de desenvolvimento e o prejuízo real que eles causam. Isso pode levar a decisões equivocadas dos pais e a rotular uma criança com uma condição que ela não tem.
Quais sinais em uma criança pequena merecem atenção, segundo a especialista?
Padrões — não sintomas isolados — como choro excessivo, irritabilidade, dificuldade de autorregulação emocional, sensibilidade sensorial aumentada, dificuldade de interação social e comportamentos restritos e repetitivos.
Qual deve ser o primeiro passo de um pai ou mãe que percebe algo diferente no filho?
Observar se o padrão se confirma e buscar o pediatra, que acompanha a criança desde sempre. Se a família permanecer insatisfeita ou achar necessário aprofundar, o passo seguinte é uma avaliação neuropsicológica com um profissional especializado.
Como o ambiente de trabalho deveria lidar com colaboradores neurodivergentes?
Com empatia e pequenos ajustes práticos — como reduzir ruído ou reorganizar o espaço — em vez de rotular a pessoa como difícil. Segundo Flávia Picoli, gestores não precisam saber o diagnóstico; a pessoa tem o direito de não revelá-lo. Basta estar disposto a adaptar o ambiente e reconhecer o potencial de quem funciona de forma diferente.
Receber um diagnóstico de neurodivergência é sempre um alívio imediato?
Não. Flávia Picoli alerta contra a romantização do diagnóstico feita nas redes sociais. Para ela, existe um processo real de luto: a pessoa precisa se reorganizar internamente para entender, à luz do diagnóstico, comportamentos e dificuldades que carregou desde a infância sem explicação.
Flávia Picoli

Flávia Picoli

Psicóloga e neuropsicóloga, à frente do Espaço Integrado

Flávia Picoli é psicóloga e neuropsicóloga à frente do Espaço Integrado, em Santa Rita do Sapucaí (MG), clínica multiprofissional de Psicologia, Neuropsicologia, Fonoaudiologia e Psicopedagogia. Atua com avaliação neuropsicológica, supervisão de casos e encaminhamento para escola, família e demais profissionais.

Falar com o IDHAN

IDHAN Sala 01 Podcast

Quer transformar esse conhecimento em prática na sua empresa?

O IDHAN oferece treinamentos, mentorias e workshops presenciais e online para líderes, RH e equipes.