"No IDHAN Sala 01, a advogada trabalhista Elis Rebeca e a recrutadora Hellen Mendes explicam por que falta de documentação é a maior causa de passivo trabalhista em pequenas empresas, por que funcionário calado é sinal de alerta e o que muda com a NR-1 a partir de 26 de setembro."
O erro jurídico mais caro em contratações não é uma cláusula mal redigida — é não ter cláusula nenhuma. É o que reforçam Elis Rebeca, advogada trabalhista, e Hellen Mendes, recrutadora e proprietária da Samadhi, no terceiro episódio do IDHAN Sala 01 Podcast, uma conversa com Angélica Nascimento sobre o encontro entre direito trabalhista e gestão de pessoas nas pequenas e médias empresas.
As duas atuam como sócias em frentes complementares: Elis com o que chama de “advocacia humanizada” — prevenção de demandas trabalhistas antes que o conflito exista — e Hellen com recrutamento, seleção e treinamento pela Samadhi, empresa com mais de 4 anos de mercado em Pouso Alegre e região.
O fim do “contrato de boca”
Elis é direta sobre a causa mais recorrente dos casos que chegam ao seu escritório: “toda vez que sou chamada dentro de uma empresa, sou chamada quando o problema já está instalado”. O padrão se repete — combinados verbais que funcionam bem até o primeiro conflito, quando cada parte lembra do acordo de um jeito diferente. Sem jornada de trabalho, funções e regras registradas por escrito, a divergência vira processo, e o que poderia ter sido resolvido com um contrato bem redigido se torna, nas palavras dela, “muito mais oneroso”.
Por que a pequena empresa é a mais exposta
Hellen observa um padrão específico entre os clientes da Samadhi: são justamente as pequenas e médias empresas que menos investem em documentação, por acreditarem que regulamento interno e descrição de cargos são coisa de multinacional. O raciocínio comum — “eu só tenho três funcionários, por que preciso disso?” — é exatamente o que deixa essas empresas mais vulneráveis quando um passivo trabalhista aparece, já que não têm como comprovar que agiram corretamente.
Liderança é a causa raiz, não o funcionário
Um dos pontos mais diretos da conversa é a inversão de responsabilidade que ambas descrevem: quando um funcionário “não entrega resultado”, a leitura mais comum culpa a pessoa, quando na maioria das vezes o problema é a ausência de cultura, treinamento e descrição clara de função construída pela liderança. Hellen resume: “80% do engajamento e do resultado da equipe é reflexo da liderança”. E acrescenta um detalhe prático que reforça o ponto — contratar alguém experiente sem treiná-la para a cultura da própria empresa significa, na prática, herdar as regras da empresa anterior dessa pessoa.
Funcionário calado é sinal de alerta
Hellen descreve um padrão recorrente na hora de identificar quem está prestes a sair: o funcionário que antes discutia, dava ideias e questionava, e passa a ficar quieto e apenas obediente. Ao contrário do que parece, silêncio não é sinal de que está tudo bem — geralmente indica que a pessoa já não se vê no futuro da empresa e está apenas cumprindo tarefas até o próximo passo.
O que muda com a NR-1
A conversa também passa pela NR-1 e a regulamentação de riscos psicossociais, que entrou em vigor em maio mas, segundo as convidadas, ainda sem aplicação efetiva de multas — o que muda a partir de 26 de setembro. Para Elis e Hellen, isso reforça um ponto mais amplo da conversa: clima organizacional deixou de ser apenas discurso e passou a ser também responsabilidade documentada da empresa.
Antes de demitir, documentar — e não agir por impulso
Encerrando o tema mais delicado da conversa, Elis é enfática: a primeira orientação antes de um desligamento é não agir por impulso ou em reação a um momento ruim. A lei não obriga o empregador a manter um funcionário, mas o processo de desligamento precisa vir acompanhado de registro — conversas documentadas, avaliações, feedbacks — para que a decisão não vire, mais tarde, um passivo evitável.
Na fala da convidada
Trechos do episódio
"Hoje as pessoas têm muito 'contrato de boca'. Ele pode ter funcionado lá atrás, mas hoje não funciona mais — funciona até onde não tem conflito."
Elis Rebeca
"Toda vez que sou chamada dentro de uma empresa, sou chamada quando o problema já está instalado. Se tudo tivesse sido documentado desde a contratação, boa parte disso não teria acontecido."
Elis Rebeca
"Empresas pequenas acham que, por não serem multinacionais, não precisam de regulamento interno ou lista de tarefas. É justamente a pequena empresa que sofre o impacto maior quando aparece um passivo trabalhista."
Hellen Mendes
"80% do engajamento e do resultado da equipe é reflexo da liderança. Quando falam que 'o funcionário é ruim', na maioria das vezes é a cultura que foi construída — ou não construída — pelo líder."
Hellen Mendes
"Se você contrata alguém com experiência mas não treina essa pessoa para a sua empresa, está trabalhando com a cultura da empresa anterior dela, não com a sua."
Hellen Mendes
Perguntas frequentes
Sobre este episódio
- Por que 'contrato de boca' (acordo verbal) é considerado o maior erro jurídico nas contratações?
- Porque funciona apenas enquanto não há conflito. Quando surge uma divergência, cada parte se lembra do combinado de um jeito diferente, e sem documento formal — jornada, funções, regras claras — o processo trabalhista se torna muito mais caro do que teria sido prevenir com um contrato bem redigido desde o início.
- Por que pequenas e médias empresas sofrem mais com passivo trabalhista do que empresas grandes?
- Porque acreditam que, por terem poucos funcionários, não precisam de regulamento interno, descrição de cargos ou documentação formal. Empresas grandes já têm essa estrutura preparada; as pequenas, sem documentação, ficam mais expostas quando um problema chega à Justiça.
- Qual é o sinal de alerta de que um funcionário está prestes a pedir demissão, segundo Hellen Mendes?
- O silêncio. Um funcionário que antes dava ideias e discutia, e passa a ficar quieto e obediente, geralmente já não se vê no futuro da empresa — está apenas cumprindo tarefas enquanto planeja o próximo passo.
- O que muda com a NR-1 a partir de 26 de setembro, segundo a conversa?
- A fiscalização sobre riscos psicossociais no ambiente de trabalho, que começou em maio mas ainda sem aplicação efetiva de multas, passa a valer com nova força a partir dessa data — reforçando a responsabilidade da empresa sobre o clima organizacional, não apenas sobre obrigações formais de contrato.

Elis Rebeca e Hellen Mendes
Advogada trabalhista (advocacia humanizada) e empresária à frente da Samadhi Recrutamento e Seleção
Dra. Elis Rebeca é advogada trabalhista, atua na prevenção do passivo trabalhista e na reestruturação de empresas antes que o processo chegue à Justiça. Hellen Mendes é empresária à frente da Samadhi, empresa de recrutamento, seleção e treinamento que atende Pouso Alegre e região, e sócia do Instituto Mix. Juntas, atendem empresas antes e depois da contratação.