"Por que uma médica sexologista e uma especialista em vinhos criaram um curso juntas? A Dra. Tetzi Oliveira Brandão e Thaisa Ferraz explicam o Harmonize-se e o que ele já mudou em mais de 330 mulheres."
Harmonizar, no vinho, significa que duas coisas juntas ficam melhores do que estariam separadas. É exatamente essa lógica que a Dra. Tetzi Oliveira Brandão e Thaisa Ferraz aplicam ao relacionamento de casal no sétimo episódio do IDHAN Sala 01 Podcast, gravado ao vivo no Espaço Cultural e Restaurante Casa de Sinhá, em Santa Rita do Sapucaí (MG). Na conversa com Angélica Nascimento, o vinho entra como desculpa e como relaxamento, mas o assunto de verdade é autoconhecimento: se você não sabe o que gosta dentro da taça, provavelmente também não sabe dizer o que gosta fora dela.
Como nasceu o Harmonize-se
A ideia original era um jantar harmonizado com um tema mais ousado. O projeto evoluiu para workshops estruturados, começando por turmas exclusivas de mulheres, um ambiente pensado para acolher perguntas que muitas nunca haviam feito em voz alta. Hoje o Harmonize-se já soma mais de 330 alunas em mais de 28 edições, tem um programa mensal fixo na rádio D2 FM e se desdobrou em três frentes: cursos para mulheres, para casais e uma edição especial para noivas, batizada de Bride and Wine, uma despedida de solteira mais refinada, com dinâmicas próprias além da tradicional caixinha de perguntas.
A caixinha de perguntas anônimas
Um dos recursos centrais do curso resolve um problema bem concreto de cidade pequena: como abrir espaço para dúvidas íntimas quando todo mundo se conhece. A solução é simples: todas as participantes escrevem algo num papel, misturando comentários triviais com perguntas mais delicadas, o que preserva o anonimato de quem faz a pergunta “cabeluda”. Muitas mulheres, relatam as convidadas, acabam se soltando tanto ao longo do curso que chegam a perguntar em voz alta.
Por que o ginecologista muitas vezes não pergunta
A Dra. Tetzi conta que o próprio Harmonize-se a levou a migrar definitivamente da obstetrícia para a sexologia. Ela explica que o ginecologista comum, sem treinamento específico em disfunções sexuais, frequentemente não pergunta sobre o assunto, e a paciente, por sua vez, também não conta espontaneamente. O resultado é um tema que fica “no limbo”: ninguém pergunta, ninguém fala, ninguém cuida. Segundo ela, o cenário vem evoluindo, mas ainda de forma lenta, em parte porque as redes sociais, que poderiam ajudar a difundir educação sexual, frequentemente confundem o tema com pornografia.
A frase que resume a diferença entre eles e elas
Um dos pontos mais citados da conversa é uma frase que a Dra. Tetzi repete há anos: o homem procura o sexo para ter intimidade, a mulher precisa de intimidade para ter sexo. Segundo ela, mais de 77% das vezes a mulher busca conexão antes do ato em si, e quando essa intimidade se esvazia no dia a dia, o casal corre o risco de evitar até um beijo, por medo de que ele “vire outra coisa”, até se tornarem, na prática, apenas colegas de casa.
Desejo espontâneo e desejo responsivo
A conversa desfaz um mito comum: a ideia de que o desejo deveria ser sempre espontâneo, como era (supostamente) no início do relacionamento. A Dra. Tetzi explica que existem dois tipos de desejo, o espontâneo e o responsivo, e que o segundo tende a predominar conforme o relacionamento amadurece. Isso não é um problema, é apenas uma mudança natural. Um achado prático reforça o ponto: divisão real de tarefas domésticas está diretamente ligada a mais desejo responsivo, porque tira da mulher a sobrecarga do planejamento mental constante. “Se você pedir, eu faço” não resolve, porque o próprio ato de ter que pedir já é cansativo.
Planejar a intimidade não é o oposto de espontaneidade
As convidadas citam estudos que mostram: reservar deliberadamente um dia, semanal ou mensal, para a intimidade do casal aumenta a frequência das relações ao longo do ano. Elas rebatem a nostalgia da “espontaneidade da juventude”: comprar uma lingerie nova, planejar sair para jantar, também eram formas de planejamento, só que disfarçadas.
Excitação, rituais e o papel dos sentidos
A dupla explica a diferença entre excitação mental e genital: sem relaxamento, a primeira simplesmente não acontece, e sem ela, o resto não segue. Daí a importância de rituais que ajudam a desligar da rotina, como o vinho, o banho, uma vela, já que, segundo elas, a mulher é particularmente sensorial. Elas também abordam o tédio sexual como resposta natural do cérebro à repetição, que pode ser quebrado com novidade planejada, sem culpa nem constrangimento, inclusive com o uso consciente de dispositivos, tema que o curso trata de forma aberta, incluindo orientações práticas de escolha, uso e higienização.
Álcool com moderação, não como regra
As convidadas fazem questão de deixar claro: vinho não é pré-requisito para intimidade, e beber em excesso tem efeito oposto ao pretendido, já que o álcool potencializa sentimentos, inclusive os negativos. A recomendação é moderação consciente, sempre em um estado emocional positivo.
Uma aula de harmonização ao vivo
No estúdio, Thaisa conduziu uma degustação com Angélica: análise visual, olfativa e gustativa de um vinho branco, seguida por um exercício com limão que demonstrou, na prática, o conceito de harmonização por semelhança, a acidez do limão “conversando” com a acidez do vinho e realçando sua doçura residual. A dupla também explicou, de forma simples, o que é tanino e como qualquer pessoa pode comprar vinho com mais segurança apenas identificando preferências básicas, como frutado, seco ou doce.
Onde o Harmonize-se já esteve
O workshop já rodou Santa Rita do Sapucaí, Pouso Alegre, Itajubá, Três Corações e Monte Verde, e chegou a Porto Velho (RO). Novas edições em Sorocaba e Bragança Paulista estão em negociação, além de uma possível parceria com uma vinícola chilena.
Na fala da convidada
Trechos do episódio
"Se você não tem autoconhecimento no mundo do vinho, você também não vai saber o que gosta para o seu prazer. O vinho entra como essa brincadeira do autoconhecimento."
Thaisa Ferraz, Adega do Patrão
"O médico ginecologista, sem treinamento específico, muitas vezes não pergunta, e a paciente não conta. Fica no limbo, e ninguém cuida."
Dra. Tetzi Brandão
"Homem procura o sexo para ter intimidade. Mulher precisa de intimidade para ter o sexo. Mais de 77% das vezes, ela procura intimidade."
Dra. Tetzi Brandão
"As mulheres têm que entender que existem dois tipos de desejo: o espontâneo e o responsivo. E tudo bem ser responsivo, é o mesmo desejo."
Dra. Tetzi Brandão
"Esse planejamento mental é exaustivo. Lava a louça, porque a sua mulher vai ter desejo responsivo. Fica a dica."
Thaisa Ferraz, Adega do Patrão
"As mulheres entraram no mercado do bem-estar sexual e mudaram a dinâmica de tudo. Hoje é muito lúdico, muito bonito, não tem por que ter vergonha."
Dra. Tetzi Brandão
Perguntas frequentes
Sobre este episódio
- O que é o Harmonize-se?
- Um workshop criado pela médica sexologista Dra. Tetzi Brandão e pela especialista em vinhos Thaisa Ferraz, que une degustação de vinho e educação sexual como ferramentas de autoconhecimento. Já teve mais de 330 alunas em mais de 28 edições, com versões para mulheres, casais e noivas.
- Por que o curso começou apenas com mulheres?
- Para criar um ambiente seguro onde elas se sentissem à vontade para perguntar o que nunca haviam perguntado antes, incluindo dúvidas íntimas, algo mais difícil numa cidade pequena onde todo mundo se conhece. Para viabilizar isso, o curso usa uma caixinha de perguntas anônimas.
- Por que muitas mulheres não conversam sobre disfunção sexual com o próprio ginecologista?
- Segundo a Dra. Tetzi, a maioria dos ginecologistas não tem treinamento específico em sexologia e, por isso, muitas vezes não pergunta sobre o assunto, e a paciente também não conta espontaneamente. O tema acaba ficando sem espaço, o que motivou a própria Dra. Tetzi a migrar da obstetrícia para a sexologia.
- Qual a diferença entre desejo sexual espontâneo e desejo responsivo?
- O desejo espontâneo surge por conta própria, sem estímulo externo, comum no início dos relacionamentos. O desejo responsivo aparece em resposta a um estímulo, como um gesto de carinho ou até a divisão de tarefas domésticas, e tende a predominar à medida que o relacionamento amadurece. Segundo a Dra. Tetzi, ele é igualmente válido e não deve ser visto como um problema.
- Por que planejar a intimidade do casal, em vez de esperar que ela seja espontânea, funciona melhor?
- Estudos citados no episódio mostram que reservar um dia, semanal ou mensal, para a intimidade do casal aumenta a frequência das relações ao longo do ano. As convidadas argumentam que a espontaneidade idealizada da juventude, na prática, também era planejada de outras formas, como comprar uma lingerie nova ou planejar sair para jantar.
- O consumo de álcool é indispensável para a proposta do Harmonize-se?
- Não. Tetzi e Thaisa deixam claro que o vinho é um facilitador de relaxamento e descontração usado com moderação, nunca um requisito para intimidade. Elas alertam que passar do ponto tem efeito contrário: em vez de aproximar o casal, atrapalha, já que o álcool potencializa sentimentos, positivos ou negativos.

Dra. Tetzi Oliveira Brandão e Thaisa Ferraz
Médica ginecologista e sexologista; empresária do vinho, sócia da Adega do Patrão
Dra. Tetzi Oliveira Brandão é professora, médica ginecologista e sexologista, com atuação em terapia sexual e disfunções sexuais, e autora de capítulos em duas obras sobre bem-estar e prazer feminino. Thaisa Ferraz é empresária do vinho, sócia da Adega do Patrão, loja especializada em vinhos em Santa Rita do Sapucaí desde 2014, e certificada pelo WSET (Wine and Spirit Education Trust), escola inglesa de referência mundial. Juntas, criaram o Harmonize-se, workshop de harmonização de vinhos e sexualidade voltado ao autoconhecimento do prazer feminino, com edições para mulheres, casais e noivas desde 2022.