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Marina de Castro Barbosa: pioneira das mulheres no café do Sul de Minas

Em 1975, a mãe dela acendeu uma vela para que ela não passasse no concurso. Marina de Castro Barbosa passou, e cinco décadas depois é pioneira das mulheres no café do Sul de Minas.

Anfitriã: Angélica NascimentoConvidada: Marina de Castro Barbosa

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"Em 1975, a mãe dela acendeu uma vela para que ela não passasse no concurso. Marina de Castro Barbosa passou, e cinco décadas depois é pioneira das mulheres no café do Sul de Minas."

Em 1975, a mãe dela acendeu uma vela para que ela não passasse no concurso. Marina de Castro Barbosa passou, e cinco décadas depois é uma das pioneiras das mulheres no café do Sul de Minas. No nono episódio do IDHAN Sala 01 Podcast, gravado ao vivo no Espaço Cultural e Restaurante Casa de Sinhá, em Santa Rita do Sapucaí (MG), Angélica Nascimento recebe Marina para uma conversa sobre uma vida inteira dedicada a abrir portas que estavam fechadas, até que, já avó, ela decidiu que o nome na embalagem seria o dela.

A vela que a mãe acendeu

Marina havia acabado de perder o pai quando decidiu fazer o concurso para a ACAR (que depois se tornaria a EMATER). A mãe reagiu com resistência: o pai, ainda vivo em memória e princípios, dizia que filha só saía de casa depois de casada. Chegou a acender uma vela torcendo para que Marina não passasse. Ela passou, foi a única aprovada entre quinze candidatos, e a notícia veio acompanhada de uma mistura de alegria e culpa por desobedecer, mesmo involuntariamente, um valor familiar antigo.

O tio que virou o jogo

A resistência da mãe só cedeu com a intervenção de um tio, que argumentou o óbvio em termos práticos: Marina era professora e, ao aceitar a vaga, passaria a ganhar dezoito vezes mais do que o salário de professora. Diante do argumento financeiro, a mãe permitiu, “com muito custo”, que ela seguisse a carreira que mudaria sua vida.

O Sul de Minas dos anos 1970: mulher em casa, homem na lavoura

Ao chegar para trabalhar na EMATER, empresa de assistência técnica e extensão rural que orienta produtores desde o plantio até a venda de café, leite e gado, Marina passou a atuar na área social, junto às esposas e filhas dos produtores. O que ela encontrou no campo era um retrato nítido da época: mulheres dentro de casa, homens na lavoura, e o café como sinônimo direto de poder e prestígio social, medido literalmente em sacas armazenadas.

Ceder um talhão: a ideia simples que mudou tudo

A virada estratégica de Marina foi convencer os produtores a ceder um pequeno talhão de terra para que as próprias esposas cultivassem café. A ideia enfrentou resistência inicial dos homens, que enxergavam a aproximação das mulheres como uma ameaça ao próprio espaço. Mas o gesto pequeno teve efeito grande: ao ter seu próprio pedaço de terra e sua própria renda, essas mulheres passaram a cuidar do cultivo com um cuidado diferente, e aos poucos deixaram de ficar apenas dentro de casa.

A viúva que provou o contrário

Um dos relatos mais fortes da conversa é o de uma produtora que, no velório do próprio marido, ouviu de alguém que “aquela fazenda ia acabar”. Em vez de desistir, ela transformou a frase em combustível. Hoje ela toca a fazenda sozinha e produz um café de pontuação altíssima, prova viva de que a ausência do marido não era sinônimo do fim do negócio.

Do festival ao livro Delícias do Café

Ainda nos anos 1980, Marina organizou o primeiro festival de produtos com sabor café em Santa Rita do Sapucaí, num momento em que a própria cidade achou a ideia estranha demais para levar a sério. O festival gerou continuidade e, com a ajuda de uma amiga, virou uma coletânea de receitas: o livro Delícias do Café, hoje na quinta edição, reunindo quase 300 receitas entre doces, salgados e bebidas com sabor café.

Mil produtores num único evento

O movimento cresceu até reunir quinze mulheres organizando um evento aberto a produtores homens e mulheres, com expectativa inicial de 600 a mil participantes. O resultado superou a própria meta: mil produtores compareceram, lotando completamente o espaço.

O Museu do Café de Santos

Um dos momentos mais emocionantes do episódio é o relato da visita ao Museu do Café de Santos, instituição que historicamente proibia a entrada de mulheres. Décadas depois, Marina organizou uma comitiva de 30 mulheres para visitá-lo e encontrou o museu inteiramente dirigido e coordenado por mulheres, uma inversão completa do cenário que ela conheceu no início da carreira.

180 mulheres no café hoje

Atualmente, cerca de 180 mulheres fazem parte do movimento de cafeicultura feminina na região, muitas vindas de profissões completamente diferentes: medicina, psicologia, direito, engenharia. Marina cita o exemplo de uma dentista carioca que, ao se mudar para Santa Rita do Sapucaí e se aproximar do grupo, passou a viver de brigadeiro de café. Outro caso simbólico é o de uma menina que, nos anos 1980, fazia bagunça durante as reuniões de produtores que Marina conduzia, e que hoje exporta café para a Alemanha.

Café da Chefa e o café servido na taça

Depois de uma vida inteira ajudando outros produtores a se profissionalizar, Marina criou a própria marca, o Café da Chefa, que hoje inclui café moído, café em grão, drip, pão de queijo, doce de leite e cachaça, com uma cafeteria no Espaço Cultural e Restaurante Casa de Sinhá. No episódio, ela também defende um hábito simples que muda a experiência de tomar café: servi-lo numa taça de vinho, que preserva o aroma e altera até o sabor percebido.

Mensagem final

Encerrando a conversa, Marina resume a própria trajetória numa frase: nunca é tarde para realizar um sonho. Mas ela é enfática sobre o que considera indispensável para tirar qualquer projeto do papel: foco, preparo e resiliência, entregando cada etapa com fé e disposição para o trabalho.

Na fala da convidada

Trechos do episódio

  • "Minha mãe acendeu uma vela para que eu não passasse no concurso. De quinze candidatos, fui a única aprovada."

    Marina de Castro Barbosa, Café da Chefa

  • "O café era sinônimo de poder, literalmente falando. Comecei a pensar: por que não ceder um talhãozinho para a esposa, para que ela tivesse o próprio dinheiro?"

    Marina de Castro Barbosa, Café da Chefa

  • "No velório do marido, alguém disse a ela que aquela fazenda ia acabar. Isso foi uma injeção de ânimo. Hoje ela toca a fazenda sozinha e produz um café de altíssima pontuação."

    Marina de Castro Barbosa, Café da Chefa

  • "Eu sempre soube que o Museu do Café de Santos era proibido para mulheres. Quando entrei e vi que hoje é dirigido por mulheres, não sabia se chorava de alegria."

    Marina de Castro Barbosa, Café da Chefa

  • "Hoje somos 180 mulheres no mundo do café aqui na região: médicas, psicólogas, advogadas, engenheiras."

    Marina de Castro Barbosa, Café da Chefa

  • "Nunca é tarde para realizar um sonho. Mas todo projeto precisa de foco, preparo e resiliência."

    Marina de Castro Barbosa, Café da Chefa

Perguntas frequentes

Sobre este episódio

Por que a mãe de Marina de Castro Barbosa não queria que ela passasse no concurso da EMATER?
Porque o pai dela, já falecido na época, tinha o costume de dizer que filha só saía de casa depois de casada. Seguindo essa lógica, a mãe chegou a acender uma vela torcendo para que Marina não fosse aprovada, mas ela foi a única aprovada entre quinze candidatos.
O que é a EMATER e o que fazia Marina como extensionista rural?
A EMATER (Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural) orienta produtores rurais desde o plantio até a venda da produção, seja café, leite ou gado. Marina atuou por cerca de cinco décadas na área social da instituição, trabalhando principalmente com as esposas e filhas dos produtores.
Como Marina começou a incluir as mulheres no mundo do café, historicamente dominado por homens?
Convencendo os produtores a ceder um talhão de terra para que as próprias esposas cultivassem café e tivessem uma renda própria. A prática, que começou como um gesto pequeno, acabou dando às mulheres autonomia financeira e as aproximou definitivamente da atividade cafeeira.
Qual é o significado da visita ao Museu do Café de Santos para o movimento liderado por Marina?
O museu historicamente proibia a entrada de mulheres. Décadas depois, Marina organizou uma comitiva de 30 mulheres para visitá-lo e encontrou a instituição dirigida inteiramente por mulheres, um símbolo forte da mudança que ajudou a construir na cafeicultura.
Quantas mulheres hoje fazem parte do movimento de cafeicultura articulado por Marina na região?
Cerca de 180 mulheres, incluindo profissionais de áreas totalmente distintas do café, como medicina, psicologia, direito e engenharia, que encontraram no setor uma nova atividade ou fonte de renda.
O que é o Café da Chefa?
A marca própria de Marina de Castro Barbosa, criada depois de décadas ajudando outros produtores a se profissionalizar. Inclui café moído, café em grão, drip, pão de queijo, doce de leite e cachaça, com uma cafeteria no Espaço Cultural e Restaurante Casa de Sinhá, em Santa Rita do Sapucaí.
Marina de Castro Barbosa

Marina de Castro Barbosa

Empresária do café especial, à frente do Café da Chefa

Marina de Castro Barbosa, a Chefa, é empresária do café especial. Trabalhou cerca de cinco décadas na EMATER-MG como extensionista rural, criou o festival e o livro Delícias do Café (hoje na quinta edição, com quase 300 receitas) e é uma das articuladoras do movimento de mulheres na cafeicultura do Sul de Minas. Hoje está à frente da própria marca, o Café da Chefa.

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